Eu escrevo para não enlouquecer

Eu escrevo para não enlouquecer

– Eu escrevo para não enlouquecer – Disse ela, andando de um lado para o outro, com um cachimbo de crack na mão.

Tábita aparentava ter aproximadamente 30 anos e uns 45 quilos. Mas pela estatura e corpo franzino, poderia até ser confundida com uma adolescente.

Ela usava um vestido largo e fluído, ornamentado de estampas psicodélicas. Os dreads eram tão memorosos quanto os olhos fundos, com olheiras marcadas e a pele queimada pelo sol.

Conheci Tábita, uma moradora de rua, numa noite em que eu e outros amigos fomos compartilhar o alimento físico e o amor de Cristo àqueles que passavam a noite em frente às Lojas Americanas, na Av. Presidente Vargas, 940, em Belém. Depois de muito conversarmos, ela me fez um pedido surpreendente: um livro.

Geralmente, moradores de rua costumam esmolar dinheiro e roupas aos que oferecem ajuda.

Mas Tábita gostava de ler. E, quando a droga não abafava a sua lucidez, escrevia os seus sentimentos.

Pedi a ela que me mostrasse um de seus textos. No mesmo instante, Tábita saiu em direção a um fardo de roupas sujas e rasgadas que estava no cantinho de uma parede.

Do meio dos trapos, tirou um texto manuscrito numa folha de papelão e me deu de presente.

Aquele gesto, acompanhado de um sorriso com dentes amarelos e maltratados pela droga, representava confiança. Fiquei surpreso.

Abatida por causa dos vícios e dos sofrimentos da vida, Tábita reconhecia, no texto, que só Deus poderia ajudá-la:

“O Amanhã é sempre o ‘agora’, porque posso fazer o que quero. A injustiça que me deixou com essa angústia. Eu mesma que escolhi. Quero muito melhorar o meu ‘agora’.

Tudo parece sem noção. Vida de covarde. Pavor de se levantar. O dia mais feliz vai ser quando eu me livrar disso. Com ou sem ajuda, preciso me manter. Saudades do passado. 

Deus, me ajuda a viver sempre! Só isso que eu penso. Guarda as minhas crianças, proteja de todas as forças, para que elas não se acovardem, fazendo delas luz de vida. Deixa elas com Você para que elas não se acovardem. Não precisam de sucesso, e sim de dignidade”.

Voltei outras vezes ao local onde encontrei Tábita, mas ela, aprisionada em um estado de letargia, não me reconheceu. A perda de memória recente é um dos efeitos devastadores da droga.

Vi um zumbi, que vagava sem saber quem foi ontem e o que será amanhã. Preso no tempo, repetindo sempre o mesmo dia.

Então, eu entendi o que aquela moradora de rua quis dizer quando revelou: “eu escrevo para não enlouquecer”. Escrever talvez seja a única ferramenta que Tábita pode usar para lembrar-se quem ela verdadeiramente é. Para lembrar dos sonhos e pessoas da sua vida, que, se não forem registrados num papel, logo desaparecem.

Mas, antes que Tábita caia na loucura do esquecimento, meus amigos e eu voltamos toda semana à Av. Presidente Vargas, 940, para lembrá-la o quanto é amada por Cristo, e que um dia seremos novamente o que fomos feitos para ser. Sem choro, sem dor. Sem drogas.

Paulo Marinho Junior

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A comidinha da mamãe

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Ser mulher tem, obviamente, suas peculiaridades. É claro que eu posso registrar bem melhor as características, os sentimentos, os prazeres e as angústias que muitas vezes residem no coração feminino do que no masculino, pelo simples fato de eu me chamar Mariana, e não Paulo.

Um dos anseios que posso afirmar com segurança ser presente no coração da maioria das mulheres, desde a tenra idade, é o de ser mãe. A começar das brincadeiras com bonecas, quando criança, até o desejo de, ainda solteira, escolher os nomes dos filhos que um dia ela vai gerar, a mulher cresce frequentemente imaginando-se exercendo, algum dia, o papel da linda maternidade.

A figura da minha mãe, eu agradeço a Deus, ainda não está presa a um porta-retrato. Sua voz eu posso ouvir, suas mãos sentir, de seu carinho desfrutar. Em meio a tudo isso, a linguagem do amor que ela mais expressa é o serviço, e esse carinho é também percebido de forma muito concreta até quando ela não está presente fisicamente.

Nas últimas semanas foi isso o que aconteceu. Estive sozinha em casa enquanto meus pais viajaram. Abrindo a geladeira diariamente, percebi a realização do sonho que a minha mãe um dia teve. Eu explico: hoje ela está em outro país, mas acabei de comer sua comidinha. Ontem, o mesmo aconteceu. Anteontem também. No almoço e no jantar, por duas semanas, todos os dias. Sabendo que ia viajar, ela teve o cuidado de deixar minha comida toda preparada.

É claro que eu disse a ela que não precisava, que já sabia me virar. Não adiantou. Abri a porta do congelador quando ela se foi, e ele estava repleto dos meus pratos preferidos. Só pude concluir uma coisa: eu, mesmo com tantas falhas, ainda sou uma das bonecas com que ela brincava quando criança.

Com  meus 26 anos, o sonho de, algum dia, abrigar em meu útero um ser vivente é real. Se o Criador da vida vai permitir, ainda não sei. Mas hoje, querido leitor, meu desejo é que você se lembre que, não importa se você vive na mesma cidade e na mesma casa desde que nasceu, pelo menos uma mudança você já experimentou: por 9 meses a sua residência fixa foi o corpo de uma mulher que contigo a vida inteira sonhou. Ou pode ainda ser que essa maravilhosa mudança tenha sido em direção aos braços daquela que pode não ter compartilhado com você seu DNA, mas em cujo coração você já residia há tempos.

Depois, ela te alimentou, trocou suas fraldas, lhe deu banho, assistiu seu desenvolvimento. Viu você crescer e, depois de com um sorriso te dar a segurança para entrar na sala de aula pela primeira vez, voltou para o carro já chorando de saudade. O tempo passou, mas ela ainda se alegra quando você sorri e chora quando te vê sofrer. Não importa a idade, ela certamente encontrará uma força que nem sabia que tinha, quando for necessário te defender. Ela é, simplesmente e na essência da palavra, sua mãe.

Agora, aqui preciso deixar um recadinho pessoal: Obrigada, mãe. Você é a mulher da minha vida, que diariamente me inspira e me faz querer melhorar. Palavras não podem expressar minha gratidão a Deus por ser sua filha. Se hoje me perguntassem “o que quero ser quando crescer”, poderia com tranquilidade simplesmente dizer que sonho em ser como você, Linéa Dias Mendes de Sá!

Mariana Dias Mendes de Sá

O último banco da igreja

O último banco da igreja

Se existe um lugar para ir quando todas as suas forças esgotaram diante de um problema, esse lugar é o último banco da igreja. Se não é o banco mais importante, é, pelo menos, o mais procurado.

Ali, o choro não hesita, sobeja a sofreguidão. Exalando a podridão do pecado, almas lânguidas procuram esperança e perdão. 

E o único que pode oferecer o que plenamente sacia a sede do pecador é Jesus Cristo. Ele, pelo sagrado princípio da onipresença, está em todos os lugares da igreja: no púlpito, nos gabinetes, na tesouraria. 

Mas certamente a graça do nosso Senhor exubera nos últimos bancos dos templos, revelando a Sua excelsa benevolência, porque ali, na maioria das vezes, encontra-se um perdido.

Enquanto o mensageiro, no púlpito, anuncia as Boas Novas, a boca trêmula do pecador, lavada por lágrimas, balbucia quase inaudível: Ó Senhor, tem misericórdia de mim. Perdoa-me!

Mediante o sincero clamor humano acontece uma ligação entre os céus e o último banco da igreja, que excede todo o entendimento. 

A alma contristada dá lugar a um coração sem culpa. Os olhos viram fonte de lágrimas e o suspiro é de alívio.

Com o passar do tempo, quem se isolava nos derradeiros assentos ganha bom ânimo e vai avançando as fileiras.

E tem gente que, em algum momento da vida, por lição divina, faz o caminho contrário: sai dos primeiros bancos e experimenta a amargura de sentar nos últimos.

Mas a verdade é que, pela vontade de Deus, sempre vai ter um último banco vazio, reservado para o choro de desalento. Ali Deus também está. A Sua maravilhosa graça é suficiente para perdão absoluto.

Então as pernas que no início caminharam em direção ao último banco sentindo a dor do peso do pecado voltam para casa livres o suficiente para dar pulos de alegria. O pecado na cruz ficou, a relação com o Pai se reestabeleceu e o fardo no último banco – para sempre – foi deixado.

Paulo Marinho Júnior

O importante barulhinho que pode se tornar inaudível

whatsapp

Tocou. O barulhinho tocou. Estava deitada na cama, e não hesitei em logo ver quem tinha me mandado mensagem no Whatsapp. Depois lembrei que aquele era o momento do dia que separo para ler a Bíblia e orar. Coloquei o celular no silencioso e fui falar com Deus. Mas poucos segundos depois, enquanto orava, percebi: quantos alertas de Deus não estou sensível para ouvir?

Quantas perguntas eu a Ele faço nesse momento específico do dia e não estou atenta o suficiente para ouvir o “barulhinho” da resposta de Deus? Eu falo, Ele ouve, Ele responde. Ele está sempre (eu disse sempre) online. Quando com Ele falo, imediatamente aparece o sinal azul de que Ele ouviu. Mas em nossa tela de conversa, se eu pudesse fazer uma adaptação ao sistema, com certeza em muitos momentos Ele leria: “Mariana mandou mensagem agorinha, mas há (…) dias não lê suas respostas”.

No Whatsapp eu só mando mensagens àqueles números que são salvos no meu telefone. É claro que Deus, como meu amigo, está entre eles. Mas temo em reconhecer que, na ordem das conversas feitas durante o dia, é provável que aquela registrada no início da manhã entre eu e o amigo que me deu a vida esteja, apesar das suas constantes respostas, lá no final. Eu pedi. Eu não li. Amanhã eu peço mais.

Gosto muito da frase de John Piper que diz que “uma das maiores utilidades do Twitter e do Facebook será a de no Último Dia provar que falta de oração não foi por falta de tempo.” Hoje acrescentaria a essa frase que o Whatsapp é mais uma dessas ferramentas. Comunicar-se com outros seres humanos é fundamental – importante, bom e útil. O Whatsapp por isso se tornou importante, bom e útil, eu preciso concordar. Mas comunicar-se com Deus é mais do que isso. Muito mais.

Durante aqueles poucos segundos percebi que ser mais atenta às respostas de Deus ao longo do dia tem valor incalculável. Depois da oração quando o Criador a isso me fez abrir os olhos li o texto de Hebreus 12, versículo 5, que diz: “Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho.”

Notei então que nos tantos momentos em que não estou online o suficiente para ler as mensagens mandadas por Deus estou desprezando a disciplina o Senhor. É verdade que Ele me responde porque me ama e me aceita como filha. Mas quem tem filho assume o dever de corrigir. Hoje, em poucos minutos dedicados exclusivamente a Ele, fui corrigida. Preciso voltar e reler nossa conversa. Preciso ficar offline para muita coisa e constantemente online para Ele ficar. Falta de oração não é por falta de tempo – é por troca de prioridade.

Mariana Mendes de Sá

A farofa que é ovo com primavera

farofa

A farofa é ovo com primavera, vocês não acham? Ela também é Fabrícia, Patrícia, areia e pó. Foi assim que eu descrevi a farofa que comi no jantar. Estranho? Também acho.

Aos 22 anos tive um AVC hemorrágico e fiquei em coma por alguns dias. Estranho? Também acho. Sobre esse acontecimento tenho várias (dolorosas e maravilhosas) experiências a contar. Mas este não é o objetivo deste texto. Simplesmente saibam o mais importante (e óbvio): Deus me trouxe de volta. Ele me trouxe de volta diferente. Eu sorrio mais, reflito mais, penso diferente, lembro menos. Ah, e vez por outra penso que farofa é ovo com primavera.

É que depois do AVC tenho crises convulsivas vez por outra. Não são aquelas crises em que o indivíduo cai no chão tendo contrações musculares involuntárias e tantas outras alterações visíveis aos que de perto estão. As desse tipo eu só apresentei na época do AVC. As crises que hoje apresento se manifestam com hipersalivação, sudorese profusa, ânsias de vômito (acho que alguns vão parar de ler por aqui) e dificuldade de comunicar-me verbalmente. Aí a farofa vira ovo com primavera.

Depois de anos sem conseguir me ver totalmente livre das crises mesmo com uso de anticonvulsivantes decidi, da última vez em que percebi que teria uma delas (momentos antes da crise eu sei que ela está vindo… é a tal da “aura”), me fechar em um quarto e ligar o gravador. Comecei então a descrever o quarto em que estava e terminei falando sobre o que havia jantado:

“Guarda-roupa branco, a parede é bege, a televisão é quadrangular. Tem também um espelho branco é.. é… arredon.. arredondado. Com.. é.. eu esqueci. O negócio que usa para levar a pochila (?).. levar a parede amarela. É.. estou com muito calor e vontade de voo (ânsia). De votar, de votar. Não, de vomitar. Eu acabei de comer. Comi arroz, frango. Comi é… aquele negócio que mistura com ovo. É… Fabricia. Não, Patrícia. Não, é.. que juntam com ovo com a primavera. Areia.. areia não. É.. com pó. Com aquele pó. É.. faz a famosa. Não, a farinha, a farinha. Faz a farinha. Acho que estou voltando.”

Voltei e ouvi o que tinha gravado. Que surpresa! Fabrícia? Patrícia? Primavera? Areia? Pó? Realmente não sabia o que estava falando. Mas aí eu me perdoei: tinha tido outra crise. Passou. Vamos voltar à vida real.

Então eu penso: quantos de nós estamos na vida real falando que farofa é ovo com primavera? Quantos de nós falamos o que não faz sentido, e que resultado benéfico algum promove? Ah, e quantos de nós fazem isso tudo sem ter que usar anticonvulsivante?

Eu me perdôo quanto aos erros da gravação. Mas quero no meu dia-a-dia falar mais que a farofa é feita de farinha. Quero dizer que o cansaço do fim do dia é saúde que tenho para alguma coisa produtiva realizar durante as 24 horas passadas. Quero lembrar que o material a ser estudado é a possibilidade de ter algo a ser aprendido. Quero perceber que o calo na mão direita é porque posso escrever. Quero olhar para as marcas deixadas pelos acessos venosos que precisaram fazer enquanto em coma eu estava e entender que elas ainda podem ser vistas porque eu ainda existo.

Mas ainda quero ligar o gravador e ouvir que a farofa é ovo com primavera lembrando que um dia não pude comer farofa. Nem ovo. Nem sentir o aroma das flores da primavera. Nem conhecer alguma Fabrícia ou Patrícia. Nem ir à praia e sentir a areia sob os meus pés, ou ainda saber o que é pó e entender o que é famoso. Mas eu voltei. Voltei do coma. Volto das crises. E ah.. farofa é farofa. E ela é, como tantas outras coisas da vida que Deus me dá para viver, gostosa!

Mariana Mendes de Sá

O sangue, a mesa, o paciente e os cirurgiões

O SANGUE, A MESA, O PACIENTE, OS CIRURGIÕES

Eu vejo sangue com frequência. Pra falar a verdade (apesar disso parecer estranho para muitos) eu gosto de sangue, desde que ele esteja presente apenas sobre o lugar onde se pretende obter a cura: a mesa de cirurgia.

Hoje é o dia em que lembramos de forma específica outra cena em que o sangue foi derramado. A mesa de cirurgia era uma cruz. O paciente era o Salvador. Os cirurgiões éramos você e eu – foram os nossos pecados os responsáveis pelo derramar do sangue de Jesus. Naquele dia, quem estava sobre a mesa de cirurgia não precisava ser operado. Ele não tinha sido anestesiado. Ele de nada precisava ser curado. Na verdade, quem estava doente éramos nós, os cirurgiões. Quem precisava de cura éramos nós. E a nós sim, foi poupada a dor do preço a ser pago para que a reaproximação do Criador acontecesse.

O paciente, devido ao ato cirúrgico, morreu. Os cirurgiões denotaram seus erros e aflitos ficaram, sem saber que aquela mesa se tornaria o símbolo da libertação. Três dias depois a alegria tomou o lugar das lágrimas: a morte foi vencida, e o paciente reviveu! Os cirurgiões perceberam então que aquele homem não tinha indicação para ser operado, mas foi porque mãos sujas de sangue ficaram que eles agora se viam livres.

O tempo cirúrgico acabou, mas bilhões de cirurgiões ainda insistem em não reconhecer que somos o motivo de toda aquela dor imensurável que culminou em morte. Muitos não percebem que a mesa suja de sofrimento aconteceu porque o paciente nos amou primeiro. E quantos ainda vivem sem experimentar a liberdade que cada gota de sangue derramada a nós pode proporcionar!

Os cirurgiões um dia serão julgados pelo Pai daquele paciente. Naquele momento, o erro médico será evidenciado. Os doutores que o tiverem reconhecido e pelo perdão clamado serão absolvidos e poderão experimentar a vida que o paciente que reviveu tem poder de proporcionar. Mas ai dos médicos que ainda quiserem defender sua suposta inocência! Eles a muitos podem ter feito o bem enquanto na ativa estiveram, mas o mais limpo e precioso sangue fiança humana alguma pode pagar.

Antes do julgamento chegar, é IMPRESCINDÍVEL lembrar: a cruz não nos aprisiona, mas nos liberta. A cruz foi onde o Salvador morreu, mas ele ali não permaneceu. É pela cruz que próximos do Pai podemos viver – a definitiva cura se deu!

Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus. Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita todos por meio de Cristo Jesus, que os salva. Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua morte na cruz, Cristo se tornasse o meio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. No passado ele foi paciente e não castigou as pessoas por causa dos seus pecados; mas agora, pelo sacrifício de Cristo, Deus mostra que é justo. Assim ele é justo e aceita os que creem em Jesus.” (Romanos 3:23-26)

Mariana Mendes de Sá

O mês da mulher (e como eu aprendi a ser uma)

mulheres

Março, o “mês da mulher”, está chegando ao fim. Ano após ano o significado do mês é o mesmo, mas as circunstâncias com o passar do tempo se diferenciam. Exemplo disso está no fato de que o mundo está cheio de gente querendo entender a mudança do comportamento psicossocial das mulheres nas últimas décadas. O que não faltam são pessoas tentando explicar porque os casamentos hoje em dia já começam com previsão de término, e uma das frequentes causas apontadas é o fato de que a mulher passou a assumir funções e responsabilidades antes exclusivamente masculinas, desestabilizando o lar.

Mas para mim, “o buraco é mais fundo”. Não discordo que a reestruturação dos papéis em casa representa um desafio que deve ser lidado com cuidado, sabedoria, maturidade e compreensão pelo casal, nem vou dar uma de que as mulheres estão hoje conquistando o que deveria ser delas há muito tempo e que se o mundo simplesmente se ajustasse a essa realidade, consequência nenhuma seria refletida no quadro familiar.

Sou mulher, acredito em nosso potencial e faço parte dessa geração que corre atrás do que quer e luta para se destacar em um mundo nem sempre receptivo à inteligência e capacidade femininas. Contudo, é inegável que, a não ser que fôssemos todas uma versão individual de mulher-maravilha, se hoje nos concentramos em ideais nunca antes pensados, deixamos de nos concentrar em outros que, convenhamos, as mulheres fazem como ninguém: cuidar da casa e da família.

Não, não sou contra a mulher estar no mercado de trabalho. Também não sou contra pais que ajudam na função de cuidar da casa. Não, não sou nem um pouco contra casais e famílias que de forma admirável se esforçam a fim de se adaptarem a um mundo novo, e a uma sociedade que exige cada vez mais, recompensando com cada vez menos.

Em meio a isso tudo, apesar de não considerar a notória mudança em questão como sendo inocente no que diz respeito à desestruturação familiar, vejo que tem muita gente supervalorizando esse fator, deixando de lado outro que, para mim, é muito mais significativo: esqueceram que meninas são meninas, merecem respeito, e devem ser tratadas com carinho e cuidado. Neste ponto, também não culpo apenas os homens. Pelo contrário, foram as próprias mulheres que esqueceram da maravilha que é ser mulher, e deixaram de esperar de outros o tratamento digno que merecem.

Ver o corpo feminino totalmente desvendado hoje é tão fácil, mas tão fácil, que chega a ser banal. Não acho que as mulheres dignas de respeito são apenas aquelas que tapam-se até os pés ou não usam nenhum acessório para se embelezarem. Mas vamos combinar que pé-perna-coxa-bunda-barriga de fora é o que mais se vê, e geralmente, junto com a exposição vem a vulgaridade. Aí, quando o que é precioso se torna vulgar, é quase impossível convencer de novo sobre o valor perdido e que se quer recuperar.

Mas mulheres que me perdoem, a culpa é nossa. Nunca ouvi ninguém dizer que arrombaram a casa de uma mulher, obrigaram-na a usar roupas com que ela não se sentisse bem, mandaram sob tortura que ela pintasse o cabelo igualzinho ao das celebridades e fizeram uma lavagem cerebral para que ela se esquecesse de sua própria identidade e passasse a encarar o sexo como algo corriqueiro, que hoje se faz com um, amanhã com outro, e pronto. Não, a opção foi nossa. Por que deixamos de sermos princesas e nos tornamos pessoas que falam o que não edifica, vestem o que não acrescenta e se relacionam com quem não vale à pena? Parte da resposta está no que nos foi ensinado quando começamos a sonhar em sermos cinderelas da vida real.

Leitora, quem era o homem que estava na sua casa e você observava enquanto imaginava aquele que te amaria “até que a morte os separasse”? O que estava na minha não era perfeito como eu imaginava que seria meu príncipe encantado, eu confesso, mas me ensinou o valioso princípio de que o sonho não era utopia, e que eu era sim preciosa.

Meu pai sempre tratou à minha mãe, a mim e à minha irmã como princesas. São incontáveis as vezes em que ele até hoje abraça a minha mãe com carinho, e agradece a Deus, em meio às lágrimas, a mulher que Ele lhe deu como companheira para a vida. Quando crianças, foram numerosos os momentos em que eu e minha irmã comprávamos roupas novas e desfilávamos pela sala com os novos modelitos, buscando a aprovação do homem das nossas vidas. (Preciso confessar que isso não mudou muito).

Mas além dos momentos bons, também não foi raro ver meu pai insatisfeito com algumas das nossas atitudes. Lembro-me bem de um conselho dado por ele que começou a solidificar em meu coração o conceito do valor que possuo. Eu estava na fase da adolescência, e em uma noite quando me preparava para sair com amigos, coloquei a minha saia azul nova e um tomara-que-caia preto. Fui para o quarto dos meus pais me ver no espelho. Meu pai estava no banheiro, enrolado na toalha e me observando de canto de olho enquanto eu puxava o tomara-que-caia para lá, para cá, para cima, para baixo… ele, quieto. Aí eu percebi que ficava com o corpo mais bonito e delineado quando colocava a saia mais embaixo, marcando bem o meu quadril. Como a saia ia até os joelhos, pensei: “Só vou ter cuidado para não levantar os braços e não deixar aparecer a barriga. Estou bonita assim.”

Quando me virei do espelho de nariz empinado me achando o máximo, ouvi meu pai me chamar de dentro do banheiro e dizer com voz firme: “Nenhum cara sério valoriza isso, filha. Você tem que se dar o valor.” Parei rapidamente, repensei a minha aparência, olhei no espelho novamente e lembro que dei uma resposta meio malcriada para ele, saí do quarto e segui com o meu modelito, como havia planejado. Mas se hoje, passados já pelo menos 10 anos do ocorrido, eu ainda me lembro disso todas as vezes que penso em parecer algo que eu não sou, já dá para você deduzir que o conselho surtiu efeito.

Então, sim, “o buraco é mais fundo”, mesmo. Março está chegando ao fim, mas o valor do que é feminino permanece. Então, ao invés de discutirmos se as mulheres devem ou não trabalhar, ou como devem ou não se portarem, que tal darmos a elas pais que um dia tiveram uma mãe que soubesse ser mulher de verdade? Que tal esses pais buscarem uma mulher de verdade como era a sua mãe, amá-la intensamente e criar filhas não para serem exposição do que é belo, mas recipiente do que é bom?

“Fathers, be good to your daughters. Daughters will love like you do. Girls become lovers, who turn into mothers. So mothers, be good to your daughters too.” / “Pais, sejam bons para suas filhas. Filhas vão amar como vocês amam. Meninas viram amantes, que se tornam mães. Então mães, sejam boas para suas filhas também.” (John Mayer – “Daughters”)

Mariana Mendes de Sá

Os 21 olhares serenos

Olhares serenos

Olhares serenos. Seguros. Em paz. Não, esses olhares não pertenciam a rostos de pessoas deitando em suas camas para aproveitarem uma boa noite de sono. Antes, eles eram expostos, há apenas alguns dias, por indivíduos ajoelhados em frente a terroristas e prestes a morrerem decapitados por fazerem parte do Povo da Cruz.

Observando as imagens e vídeos feitos daqueles momentos, o que mais me chamou a atenção foram aqueles olhares. Fiquei impressionada. Eles sabiam que iriam morrer. Mesmo assim, eles não choravam, não imploravam misericórdia, não tentavam fugir e não negavam a fé em Cristo esperando ter a pena absolvida.

Depois, o que também em muito chamou minha atenção foi o cenário. Que obra linda! A praia, as pedras, as ondas… a voz do Criador. Ele estava lá. Ele criou os homens de preto e os homens de laranja. Ele decidiu dar a todos eles pernas, que nesse dia os levavam àquele maravilhoso lugar. E Ele decidiu dar a todos eles voz. No vídeo, são apenas duas as vozes que podem ser ouvidas: a do líder do grupo terrorista e a do próprio Deus. O terrorista usava palavras. Deus usava a criação, por meio da água das ondas de um lindo mar que ressoava ao bater nas pedras que rodeavam a cena.

Na carta aos Romanos, capítulo 1, versículo 20, um ex-perseguidor dos cristãos escreveu: “Desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas”. Ele era o conhecido apóstolo Paulo, que já tinha matado cristãos, como aqueles vestidos de preto o fizeram. Deus o salvou, e Paulo decidiu viver por Ele, denotando que o Senhor tem atributos invisíveis, eterno poder e natureza divina que podem ser claramente vistos através da criação. Ao final da sua vida esse ex-perseguidor afirmou: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.” (II Timóteo 4:7,8).

Eu não conheci aqueles 21 cristãos perseguidos até a morte, mas seus olhares serenos mesmo em meio à dor emocional que sentiam e física que estavam prestes a sofrer a mim muito disseram. A verdade é que eles combateram de forma excelente o bom combate. A corrida deles terminou de forma extremamente dolorosa em meio a um majestoso cenário da criação. E naquela hora, ouvindo a voz do perseguidor e mediante a trilha sonora do Criador, eles decidiram guardar a fé.

O terrorista falou. Deus soou. O testemunho daqueles cristãos, mesmo com suas bocas fechadas, gritou: “vale à pena fazer parte do Povo da Cruz.” Um dia, com eles me encontrarei e comprovarei: a eles foi reservada a coroa da justiça pelo justo Juiz. Homens de preto, não se enganem: Allah estava lá.

Mariana Mendes de Sá

As caixas

caixasTenho caixas de sentimentos. Várias delas. Acho valioso guardar objetos que, apesar de não representarem material concreto do que é vivido no presente, remetem a momentos no passado experimentados que não devem jamais serem esquecidos. Por isso, em minhas caixas guardo lembranças, fotos, diários, anotações, cartas de amigos, bilhetes de paqueras da adolescência…

Não existe valor monetário do que é guardado nas caixas – mas o valor sentimental do que foi vivido não pode ser medido. Ao abrir as caixas, emoções podem aflorar, sendo expressadas através de sorrisos ao deparar-me com a inocência dos comentários de algum menino apaixonado e risos ao ler em meus diários a descrição da intensidade dos sentimentos que a mim eram tão reais aos 14 anos de idade.

Depois, eu fecho as caixas, volto à realidade do hoje, e continuo, aos poucos, a preencher os espaços ainda vazios nas caixas com situações que vivo e no futuro quero relembrar. O problema, nisso tudo, é um só: a tampa das caixas. De alguma forma, a tampa demonstra que o que dentro da caixa foi depositado, agora, de fato, não passa de uma lembrança. Depois de o objeto ser colocado dentro de uma caixa que é posteriormente tampada, é como se, da próxima vez que a ele eu tiver acesso, será para simplesmente relembrar – mas não voltar a viver.

Estar nessa situação é, tenho concluído, mais difícil e oneroso do que eu poderia imaginar na época em que ainda criança comecei a aglomerar o que para mim tinha significado. As realidades no passado vivenciadas podem, apesar de já não mais estarem no presente, ainda não serem pequenas o suficiente para caberem dentro de uma caixa fechada. Contudo, relembrei: recipiente que possui limites verdadeiros a ponto de não oferecer espaço para determinada lembrança só pode ser real no aspecto físico.

Assim, quando deparei-me com lembranças que ainda não eram pequenas o suficiente para caberem dentro das caixas do armário, percebi que deveria mudar meu foco e observar uma verdade abstrata, mas inerente ao ser humano: existe um recipiente que guarda sem que escolhamos, não oferece tampa para que esqueçamos e não demanda matéria física para que as emoções previamente vivenciadas voltem a aflorar. Esse recipiente chama-se coração.

Sendo assim, não se preocupe em usar as tampas das caixas. As memórias jamais perdidas e, quem sabe, um dia novamente vividas já foram, sem que você percebesse, guardadas na caixa intocável, mas real; invisível, mas eterna. Essa caixa pulsa a cada momento no peito, indicando, em termos práticos, apenas uma coisa: estamos vivos. Enquanto há vida, há emoções. Enquanto emoções existem, lembranças são inevitáveis. Resta a cada um reconhecer quais são aquelas pequenas o suficiente para caberem nas caixas físicas do armário, e quais são as que, de maneira inevitável, caixa nenhuma poderá algum dia conter.

Mariana Mendes de Sá

A curta (e pequena?) vida

curta nova

A morte é, para alguns, uma triste realidade. E a vida, para outros, também parece ser.

“A vida é curta para ser pequena.” Essa frase, cujo autor não sei quem é (se for amplamente conhecido, me desculpem a ignorância) ouvi recentemente e sobre ela refleti. É verdade. A vida é curta. Muito curta. Pode parecer estranho uma mulher “jovem” assim perceber e expressar com tanta firmeza a realidade da rapidez com que os anos se vão. Mas, ultimamente, talvez o número de dias vividos por cada um de nós tenha sido o pensamento que mais tem ocupado a minha mente.

Já por três vezes ouvi de 2 profissionais e 1 estudante o que, para mim, soou como quão pequena a vida pode ser:

Profissional A: “Se eu pudesse, voltaria no tempo e escolheria outra coisa para fazer. É duro ver meu filho tentando me impedir de sair para o trabalho. Por mim, com ele ficaria.”

Profissional B: “Hoje, dentre muitas coisas que um dia me fizeram gostar dessa carreira, só uma restou.”

Estudante A: “A minha escolha por essa profissão é porque assim vou ter mais dinheiro e as pessoas vão me achar bacana.”

Os três, um dia, morrerão. Não tenho de forma alguma o direito de julgar como inválidas suas afirmações (com exceção do último, já que há 9 anos estive nessa mesma fase de escolher minha profissão). Mesmo assim, prefiro deles aprender lição importante.

A vida é MUITO curta. Não importa o quanto a “expectativa de vida” esteja a aumentar nos últimos anos, ela continua sendo curta. Em meio a isso, e na teoria, é simples citar o que deveria ser feito a fim de evitar sua pequenez: ter como atividade diária aquilo que dá prazer, passar preciosos momentos com os queridos familiares e amigos, viajar, conhecer, fazer diferença em um mundo desigual, sorrir mais e chorar menos. Mas na prática, convenhamos: entre as curtas vidas perambulando pelo mundo atualmente, boa parte (se não for a maioria) é pequena. Com base nisso tudo, de que forma então seria verdadeiramente possível “engrandecer” a curta vida? A resposta a essa pergunta também é simples: abrindo mão do que é, literalmente, inútil.

1) Para ter prazer no que se faz, é preciso livrar-se da pressão externa de que dinheiro traz felicidade; para que o necessário retorno financeiro seja uma realidade, é preciso preparar-se, a fim de se destacar no ramo de atividade escolhido; para preparar-se, é preciso ter tempo.

É inútil priorizar roupas caras e casa bonita. No fim da curta vida, uma só será a roupa que vestirá o seu corpo, e as medidas da casa que o abrigará, independentemente do preço do caixão, serão semelhantes às de todos os outros.

2) Para poder passar preciosos momentos com os queridos, precisamos restringir o que toma horas da nossa curta vida; concluindo: é preciso ter tempo.

É inútil priorizar o que pode tomar horas do viver se a ele tal atividade em nada soma. Pode parecer surpreendente (ironia mode on), mas dentre essas inutilidades encontram-se as horas navegando nas redes sociais e outras tantas assistindo televisão (sobre isso, em específico, é melhor nem comentar; tenho receio de que minhas palavras te escandalizem).

3) Para viajar (sendo de carro, avião, trem, ou simplesmente através da leitura de um bom livro), é preciso ter férias e finais de semana sem compromissos – é preciso ter tempo.

É inútil marcar compromissos que não trazem prazer e nada tem de urgência no pouco tempo livre das férias, folgas ou finais de semana.

4) Para conhecer, é preciso ter curiosidade; para a curiosidade brotar, é preciso ter estímulo; para o estímulo se tornar real, é preciso viver o incomum; para que isso aconteça, é preciso ter tempo.

É inútil escolher o cotidiano comum – o dia 31 de dezembro igual ao 1 de janeiro do mesmo ano. Que tal arriscar um pouco mais, experimentando o diferente?

5) Para fazer diferença em um mundo desigual, é preciso ter vontade; para ter vontade, é preciso ter consciência; para ter consciência, é preciso enxergar o que precisa mudar; para que isso aconteça, é preciso ter tempo.

É inútil priorizar o mais, enquanto outros precisam priorizar simplesmente o ter acesso ao suficiente a fim de ser possível abrir os olhos amanhã – seu túmulo, sinto informar, vai estar ao lado do deles.

6) Por fim, para sorrir mais e chorar menos, é preciso ter tempo para não viver uma vida pequena.

É inútil ter como fonte da felicidade o espelho. Acredite: as pessoas vão perceber que isso tudo é botox. E eu posso estar errada, mas prefiro acreditar que a quantidade das rugas por volta dos olhos ao final da curta vida também tem a influência de quantos sorrisos foram, ao longo dela, expressos.

Eu reconheço que escrever isso tudo sendo ainda jovem é fácil. A verdade é que ao final dos meus curtos anos, não sei se minha vida terá ou não sido pequena. Mas de uma coisa estou certa: não vivemos anos. Vivemos uma V-I-D-A, que um dia acabará. E eu só espero que, se no túmulo que um dia abrigará meu corpo for registrada a seguinte frase, ela seja verdadeira:

“Era baixinha. Mas não viveu sendo pequena.”

Mariana Mendes de Sá